Para investigação e estudos de mercado

Autor:Mário Rocha
A distinção entre modelos reflexivos e formativos constitui uma das discussões metodológicas mais relevantes na modelagem de equações estruturais (SEM), sendo que apesar do crescimento da utilização de softwares como SmartPLS, AMOS, Mplus e lavaan, ainda são muitas as dificuldades na correta especificação dos construtos.
Jarvis, MacKenzie e Podsakoff (2003), referiram que erros na especificação dos modelos de mensuração podem comprometer significativamente a validade dos resultados e conduzir a interpretações incorretas. Coltman et al. (2008) também reforçam esta ideia ao criticarem a utilização automática de modelos reflexivos em grande parte da literatura de gestão e ciências sociais.
Mais recentemente, autores como Repke et al. (2024), Menold, Bluemke e Hubley (2018) e Hanafiah (2020) apelaram para necessidade de compreender validade, causalidade, dimensionalidade e fundamentação teórica de forma integrada.
Passamos então de seguida a abordar alguns aspectos essenciais para a validade e distinção entre este modelos reflexivos e formativos.
Menold, Bluemke e Hubley (2018) defendem que a validade representa um dos elementos centrais da medição nas ciências sociais. Os autores referem que a validade não deve ser encarada como uma propriedade fixa de um instrumento, mas sim como um processo contínuo de recolha de evidências. Segundo os autores, muitos estudos concentram-se excessivamente em análises estatísticas internas, negligenciando a validade de conteúdo, processos de respostas, consequências da medição, interpretação conceptual dos resultados. Os autores destacam ainda que os avanços estatísticos e de software facilitaram a obtenção de indicadores estatísticos, mas isso não substitui a necessidade de fundamentação teórica robusta.
Repke et al. (2024) reforçam que validade deve ser compreendida desde o desenho da investigação até à interpretação final dos resultados. Já Bandalos (2018) apresenta uma abordagem abrangente da teoria da medição nas ciências sociais, destacando a confiabilidade, validade convergente, validade discriminante, equivalência de medição, dimensionalidade e análise fatorial exploratória e confirmatória. Para este autor muitos investigadores utilizam técnicas estatísticas sem compreender adequadamente os pressupostos teóricos subjacentes.
Nos modelos reflexivos, o construto latente causa os indicadores observáveis. Assim, alterações no construto tendem a refletir-se nos itens medidos. Segundo Hair et al. (2022) os modelos reflexivos apresentam elevada correlação entre indicadores, consistência interna relevante, intercambialidade entre itens, adequação de Alpha de Cronbach, fiabilidade compósita e AVE. Brown (2015) destacou, ainda, que modelos reflexivos estão fortemente associados à análise fatorial confirmatória (CFA), sendo particularmente comuns em psicologia, educação e marketing.
Nos modelos formativos, os indicadores formam o construto latente. Neste caso, os itens não representam manifestações do construto, mas sim os próprios elementos que o constituem. Diamantopoulos e Winklhofer (2001) defenderam que os construtos formativos exigem uma lógica metodológica diferente, especialmente porque os indicadores podem não apresentar elevada correlação, remover um item altera o significado conceptual e medidas tradicionais de consistência interna podem ser inadequadas. Também Petter, Straub e Rai (2007) reforçaram que construtos multidimensionais em sistemas de informação frequentemente exigem especificação formativa.
Na tabela abaixo apresentamos uma comparação resumo entre modelos formativos e reflexivos
| Aspeto | Reflexivo | Formativo |
| Direção causal | Construto → indicadores | Indicadores → construto |
| Correlação entre itens | Esperada | Não obrigatória |
| Intercambialidade | Elevada | Baixa |
| Alpha de Cronbach | Importante | Pode ser inadequado |
| AVE | Relevante | Nem sempre apropriada |
| Exemplos | Satisfação, ansiedade | Nível socioeconómico |
| Softwares | AMOS, lavaan | SmartPLS, WarpPLS |
Coltman et al. (2008) desenvolveram uma das discussões metodológicas mais importantes sobre especificação de modelos formativos e reflexivos. Os autores criticaram aquilo que designam como “assunção automática de modelos reflexivos” na literatura. Segundo estes autores, muitos investigadores escolhem modelos reflexivos apenas porque são mais familiares, os softwares facilitam a aplicação e existem mais critérios estatísticos disponíveis. Contudo, os autores alertam que esta prática pode conduzir a problemas graves de validade conceptual e interpretação.
Neste âmbito é fundamental falar de alguns erros comuns.
Entre os erros metodológicos mais frequentes destacam-se a utilização inadequada de Alpha de Cronbach em construtos formativos, a eliminação incorreta de indicadores, a ausência de fundamentação teórica, a utilização automática de modelos reflexivos e a interpretação inadequada de validade convergente e discriminante. Deste modo autores como Jarvis et al. (2003) e Coltman et al. (2008) alertaram que a correta especificação dos construtos deve começar pela teoria e não apenas pelos outputs estatísticos.
Para além desta distinção entre modelos formativos e reflexivos é importante fazer referencia às diferenças entre CB-SEM e PLS-SEM, que também são melhor explicados num outro artigo: “CB-SEM e PLS-SEM: quando usar cada abordagem?”
Bandalos, D. L. (2018). Measurement Theory and Applications for the Social Sciences. The Guilford Press.
Brown, T. A. (2015). Confirmatory Factor Analysis for Applied Research (2nd ed.). Guilford Publications
Byrne, B. M. (2016). Structural Equation Modeling with AMOS: Basic Concepts, Applications, and Programming. Taylor & Francis Group
Coltman, T., Devinney, T. M., Midgley, D. F., & Venaik, S. (2008). Formative versus reflective measurement models: Two Applications of Formative Measurement. Journal of Business Research, 61(12), 1250-1262. http://dx.doi.org/10.1016/j.jbusres.2008.01.013
Diamantopoulos, A., & Winklhofer, H.M. (2001). Index Construction with Formative Indicators: An Alternative to Scale Development. Journal of Marketing Research, 38, 269-277. http://dx.doi.org/10.1509/jmkr.38.2.269.18845
Hair, J. F., Hult, G. T. M., Ringle, C. M., & Sarstedt, M. (2022). A Primer on Partial Least Squares Structural Equation Modeling (PLS-SEM) (3rd ed.). Sage.
Hanafiah, M. H. (2020). Formative Vs. Reflective Measurement Model: Guidelines for Structural Equation Modeling Research. International Journal of Analysis and Applications. http://dx.doi.org/10.28924/2291-8639-18-2020-876
Jarvis, C. B., MacKenzie, S. B., & Podsakoff, P. M. (2003). A Critical Review of Construct Indicators and Measurement Model Specification in Marketing and Consumer Research. Journal of Consumer Research 30(2), 199-218. http://dx.doi.org/10.1086/376806
Kline, R. B. (2023). Principles and Practice of Structural Equation Modeling (5th ed.). Guilford Press.
Menold, N., Bluemke, M., & Hubley, A. M. (2018). Validity: Challenges in conception, methods, and interpretation in survey research [Editorial]. Methodology: European Journal of Research Methods for the Behavioral and Social Sciences, 14(4), 143–145. https://doi.org/10.1027/1614-2241/a000159
Petter, S., Straub, D., & Rai, A. (2007). Specifying formative constructs in Information Systems Research. MIS Quarterly, 31 (4), 623-656. https://doi.org/10.2307/25148814
Repke, L., Birkenmaier, L., & Lechner, C. M. (2024). Validity in Survey Research – From Research Design to Measurement Instruments. GESIS – Leibniz-Institut für Sozialwissenschaften. https://doi.org/10.15465/gesis-sg_en_048

Autor: Mário Rocha
A modelagem de equações estruturais (Structural Equation Modeling – SEM) tornou-se uma das metodologias quantitativas mais relevantes nas ciências sociais, gestão, psicologia, educação e saúde. Entre os softwares mais utilizados nesta área destacam-se o AMOS e o SmartPLS, ambos amplamente adotados em investigação científica, embora baseados em abordagens metodológicas distintas.
O AMOS (Analysis of Moment Structures), foi inicialmente criado por Arbuckle e está estritamente associado a uma abordagem covariance-based SEM (CB-SEM) e é muito utilizado em investigação, como forma confirmatória e de validação teórica. Já o SmartPLS é mais popular porque se apresenta simples em termos de funcionamento e tem uma forte associação ao Partial Least Squares SEM (PLS-SEM), particularmente em modelos preditivos e exploratórios, embora em versões mas recentes como a versão 4, já contenha também CBS-SEM.
Independentemente das suas diferenças metodológicas, ambos os softwares desempenham papéis importantes na investigação quantitativa contemporânea e é nesse sentido que este artigo apresenta uma análise comparativa aprofundada entre AMOS e SmartPLS, abordando semelhanças, diferenças, vantagens, limitações, aplicações recomendadas e implicações metodológicas.
O AMOS é um software desenvolvido para modelagem de equações estruturais baseado em covariâncias (CB-SEM), que se tornou uma das ferramentas mais populares para análise fatorial confirmatória (CFA), validação de modelos teóricos e avaliação de relações causais entre variáveis latentes (Byrne; 2016; Kline, 2023).
Uma das suas principais vantagens é a sua interface gráfica intuitiva, que permite construir modelos através de diagramas visuais, não necessitando de muita programação mais avançada e manual, o que contribuiu significativamente para a popularização do SEM entre investigadores sem experiência avançada em programação.
O AMOS destaca-se particularmente em:
O SmartPLS é um software focado na abordagem Partial Least Squares Structural Equation Modeling (PLS-SEM). Segundo Hair et al. (2022), o PLS-SEM foca-se mais em objetivos preditivos e exploratórios e é especialmente útil quando os modelos são complexos, as amostras são relativamente pequenas ou os dados não apresentam distribuição normal. Ganhou enorme popularidade em áreas como gestão, marketing, sistemas de informação e empreendedorismo devido à facilidade de utilização e rapidez analítica e destaca-se especialmente em:
Apesar de terem diferenças metodológicas, AMOS e SmartPLS apresentam várias semelhanças importantes que passamos as destacar:
Em resumo, tanto o AMOS quanto o SmartPLS desempenham um papel relevante na investigação quantitativa contemporânea e não devem ser encarados como ferramentas concorrentes absolutas, mas sim como abordagens metodológicas complementares.
Apesar do grande crescimento do SmartPls, o AMOS continua as ser muito importante em investigação quantitativa, especialmente quando o objetivo principal é testar modelos teóricos bem fundamentados e também validar escalas de avaliação. Segundo Byrne (2016), uma das grandes forças do AMOS reside na avaliação rigorosa do ajustamento global do modelo e tem como principais vantagens:
Para além disto, é fundamental mencionar que AMOS é muito recomendado para utilização em contextos onde a teoria está bem estabelecida e o objetivo principal é confirmar relações previamente definidas.
Embora extremamente poderoso, o AMOS apresenta algumas limitações metodológicas e operacionais, como:
Segundo Hair et al. (2022), o SmartPLS tornou-se uma das ferramentas mais populares em investigação aplicada devido sua robustez em contextos mais exploratórios e preditivos, e apresenta como principais vantagens:
Resumidamente, o SmartPLS é particularmente útil quando o objetivo é previsão, desenvolvimento teórico inicial ou investigação exploratória.
Apesar de ter muitas vantagens, o SmartPLS também apresenta limitações importantes, como:
O AMOS tende a ser mais recomendado quando:
O SmartPLS apresenta-se como mais adequado quando:
Então qual é o melhor? AMOS ou Smart Pls?
A pergunta “qual software é melhor?” pode ser metodologicamente inadequada, uma vez que segundo Hair et al. (2022) e Kline (2023), a escolha entre CB-SEM e PLS-SEM deve depender dos objetivos da investigação e não de preferências pessoais.
Deste modo modo, o AMOS continua extremamente importante em investigação confirmatória e validação teórica rigorosa, enquanto que o SmartPLS se destaca mais pela capacidade preditiva e flexibilidade metodológica.
Assim, ambos os softwares devem ser encarados como ferramentas complementares e não necessariamente concorrentes.
Tabela Comparativa – AMOS vs SmartPLS
| Critério | AMOS | SmartPLS |
| Abordagem | CB-SEM | PLS-SEM |
| Objetivo principal | Confirmação teórica | Predição e exploração |
| Base estatística | Covariâncias | Variância |
| Distribuição normal | Preferencial | Não obrigatória |
| Pequenas amostras | Menos recomendado | Mais adequado |
| Variáveis formativas | Limitado | Muito forte |
| Complexidade operacional | Moderada | Baixa |
| Interface gráfica | Muito intuitiva | Muito intuitiva |
| Indices de Ajustamento global | Muito forte | Mais limitado |
| Predição | Moderada | Muito forte |
| Aceitação histórica | Muito elevada | Crescente |
| Áreas mais comuns | Psicologia, educação, saúde | Gestão, marketing, IS |
| Tipo de investigação | Confirmatória | Exploratória/preditiva |
| Integração com SPSS | Sim | Não direta |
| Curva de aprendizagem | Moderada | Relativamente simples |
Um aspeto particularmente relevante nos últimos anos é a evolução metodológica do SmartPLS. Estando historicamente associado sobretudo ao PLS-SEM, é importante salientar que as versões mais recentes do software (desde 2024) passaram também a incorporar funcionalidades relacionadas com CB-SEM, o que constitui um desenvolvimento importante na área da modelagem de equações estruturais.
Em termos mais práticas esta evolução aumenta significativamente as possibilidades analíticas do SmartPLS, permitindo maior flexibilidade metodológica aos investigadores, uma vez que deixou de estar exclusivamente ligado a abordagens preditivas e exploratórias, passando também a integrar procedimentos associados à validação confirmatória.
Tal facto contribuiu para aumentar ainda mais a popularidade do SmartPLS em contextos académicos e profissionais, especialmente entre investigadores que procuram combinar análise preditiva, validação teórica e modelos complexos num único software.
Em suma, o AMOS e o SmartPLS representam duas das ferramentas mais relevantes em modelagem de equações estruturais contemporânea. Deste modo, enquanto o AMOS mantém forte tradição em investigação confirmatória baseada em covariâncias, o SmartPLS consolidou-se em investigação exploratória e preditiva.
Então, a escolha adequada destes softwares depende dos objetivos analíticos, da natureza dos dados, da fundamentação teórica e do contexto metodológico da investigação.
Em vez de procurar um “vencedor absoluto”, os investigadores devem compreender as características, potencialidades e limitações de cada abordagem (PLS-SEM e CB-SEM) e respetivos softwares (SPSS Amos e SmartPLS)
Para além dos artigos que temos disponíveis sobre CB-SEM VS PLS-SEM e Importância do CB-SEM para a validação de escalas, também aconselhamos vivamente a ler o nosso artigo sobre modelos formativos vs modelos reflexivos:
Importância do CB-SEM para a Validação de Escalas de Avaliação
CB-SEM e PLS-SEM: Quando usar cada abordagem
Modelos Formativos vs Reflexivos em SEM: Como diferenciar?
A utilização adequada de AMOS e SmartPLS exige não apenas domínio técnico do software, mas também conhecimento metodológico sólido relativamente à modelagem de equações estruturais, sendo que muitas das dificuldades, erros e problemas em dissertações, teses e artigos científicos surgem não pela utilização do software em si, mas por alguns fatores como:
Deste modo, disponibilizamos apoio especializado em:
O grande objetivo é auxiliar investigadores e estudantes a desenvolver análises metodologicamente robustas e alinhadas com as melhores práticas científicas contemporâneas.
Byrne, B. M. (2016). Structural Equation Modeling with AMOS (3rd ed.). Routledge.
Chua, Y.P. (2024). A step-by-step guide to SMARTPLS 4: Data analysis using PLS-SEM, CB-SEM, Process and Regression. Researchtree. https://www.researchgate.net/publication/379413546_A_step-by step_guide_to_SMARTPLS_4_Data_analysis_using_PLS-SEM_CB-SEM_Process_and_Regression
Hair, J., Babin, B.J., Ringle, C.M., & Sarstedt, M. (2025). Covariance-based structural equation modeling (CB-SEM): a SmartPLS 4 software tutorial. Journal of Marketing Analytics, 13 (3). https://doi.org/10.1057/s41270-025-00414-6
Hair, J. F., Hult, G. T. M., Ringle, C. M., & Sarstedt, M. (2022). A Primer on Partial Least Squares Structural Equation Modeling (PLS-SEM) (3rd ed.). Sage.
Kline, R. B. (2023). Principles and Practice of Structural Equation Modeling (5th ed.). Guilford Press.